sábado, 10 de maio de 2008

A CRIAÇÃO DE ABELHAS INDÍGENAS SEM FERRÃO


Introdução
Entre as abelhas sociais brasileiras, as pertencentes à subfamília Meliponinae, chamadas popularmente de abelhas indígenas sem ferrão, são as mais conhecidas. Existem mais de 200 espécies diferentes, algumas das quais freqüentemente criadas para a produção de mel. Os ninhos dessas abelhas são encontrados, de acordo com a espécie, em locais bastante diversos, havendo aquelas que constroem ninhos subterrâneos, dentro de cavidades preexistentes, formigueiros abandonados, entre raízes de árvores etc, como a guira ou mulatinha-do-chão (Schwarziana quadripunctata) ou a mombuca (Geotrigona mombuca) ou, ainda, a mandaçaia-do-chão (Melipona quinquefasciata). Outras constroem ninhos aéreos, presos a galhos ou paredes como a arapuá (Trigona spinipes) ou a sanharão (Trigona truculenta). A maioria das espécies, entretanto, constrói seus ninhos dentro de cavidades existentes nos troncos ou galhos das árvores como a jataí (Tetragonisca angustula), a mandaçaia (Melipona quadrifasciata), a manduri (Melipona marginata), a mandaguari (Scaptotrigona postica), a timirim (Scaptotrigona xanthotricha) e muitas outras espécies. Muitas dessas espécies, que utilizam cavidades em madeira, são muitas vezes encontradas em cavidades existentes em muros e paredes de alvenaria, como acontece comumente com a jataí, a iraí (Nannotrigona testaceicornis) e a mirim (Plebeia droryana). Algumas espécies fazem ninhos ainda dentro de cupinzeiros como acontece com a cupira (Partamona sp.) ou com Scaura latitarsis, e outras constroem dentro de formigueiros ativos. O interessado em abelhas indígenas precisa atentar para o fato de que muitas vezes o nome popular varia de uma região para outra, de tal forma que muitas vezes uma única espécie recebe, em regiões diversas, denominações diferentes e, muitas vezes, o mesmo pode ser usado para designar várias espécies de abelhas. Como as abelhas são polinizadoras de plantas, cultivadas ou não, é importante que se atente para o fato de que, mais importante que o mel produzido por elas, é a polinização que promovem e que permite a produção de sementes por diversas plantas, muitas das quais extremamente úteis para o homem. Sem esse auxílio, muitas espécies de plantas deixam de produzir frutos e sementes, podendo inclusive serem extintas. Dada a grande importância das abelhas indígenas é preciso que se preservem estas espécies, pois, muitas delas estão sendo dizimadas, seja pelo desmatamento e queimadas, seja pelo uso indiscriminado de agrotóxicos. Como muitas dessas espécies produzem mel saboroso e muito procurado, os próprios meleiros, que retiram o mel destruindo a colméia, contribuem para a extinção dessas abelhas em algumas regiões. A criação dessas abelhas e a sua exploração racional podem contribuir para a preservação das espécies e dar ao meliponicultor oportunidade de obter mel. Esta atividade vem sendo desenvolvida há bastante tempo em diversas regiões do país, especialmente no Norte e Nordeste, havendo meliponicultores que possuem grande número de colméias de uma única espécie, como é o caso da tiúba (Melipona compressipes) no Maranhão ou a jandaíra (Melipona subnitida) no Ceará e Rio Grande do Norte. Existem, ainda, muitos meliponicultores que criam abelhas indígenas como passatempo, explorando o mel apenas esporadicamente. Colônias de abelhas indígenas podem ser obtidas pela atração de enxames, pela divisão de colônias já estabelecidas e pela captura de colônias existentes na natureza.

As Abelhas sem Ferrão


Centenas de espécies para polinização, produção de mel, lazer e educação
Apesar de ter sido trazida da Europa somente no século passado e da África neste século, conhecemos a abelha africanizada (Apis mellifera) muito bem. Seu mel e outros produtos são amplamente comercializados em todo o mundo, suas picadas são famosas, e muitos aspectos da sua biologia foram minuciosamente estudados - até Aristóteles já escreveu sobre elas. Não ocorre assim com as abelhas sem ferrão: como são quase uma exclusividade dos trópicos, não chegaram ao conhecimento ocidental até que os naturalistas se aventuraram nas expedições ultramarinas nos últimos séculos. No entanto, já nos códices (livros) maias pré-colombianos se explicava como criar espécies de abelhas sem ferrão que tinham importância econômica ou religiosa (fig.1). Também os índios kayapó revelaram um conhecimento assombroso da anatomia e comportamento das espécies das quais ainda aproveitam o mel, o pólen e as larvas para alimentação; o cerúmen e as resinas para confecção de artefatos (inclusive flechas), e misturas de abelhas e partes do ninho na medicina - além de mitologicamente se espelharem nestes animais para entender a origem e organização da tribo.
Para entender as abelhas sem ferrão, falemos um pouco das abelhas em geral. Todas provêm evolutivamente de um grupo de vespas que deixou de fornecer presas (como aranhas e insetos) a seus filhotes, substituindo a necessidade de proteína para o desenvolvimento das larvas com o pólen coletado das flores. Contrário à imagem popular, das 20.000 espécies de abelhas atuais, a maioria é solitária: não tem colônias, nem rainhas, nem operárias. Só umas poucas vivem em complexas sociedades com requintados sistemas de comunicação e cooperação. E dentro destas, somente se multiplicam em enxames o grupo das abelhas Apis (que comentávamos no início), e o grupo que estamos tratando agora e cujos representantes mais populares são a jataí (Tetragonisca angustula), uruçu (Melipona scutellaris), tiúba (Melipona compressipes), jandaíra (Melipona subnitida), borá (Tetragona clavipes), mandaçaia (Melipona quadrifasciata, fig. 2), etc.
O fato mais marcante destas abelhas é justamente que a espécie antepassada que deu origem a este grupo perdeu o ferrão. Isto provavelmente está relacionado com o fato de a colônia não ficar exposta quando as abelhas enxameiam (elas se dividem e mudam de casa "pouco a pouco") e a construção de ninhos ser geralmente em lugares bem protegidos. Com efeito, dificilmente veremos as abelhas sem ferrão se caminharmos numa floresta desatentos, e claro, nunca tropeçaremos com um enxame delas.
Seus ninhos são um espetáculo aparte de arquitetura e organização (fig. 3). Geralmente se alojam em cavidades de tamanhos adequados as quais elas acabam de acondicionar com barro, cera e resina. Estas cavidades podem ser ocos de velhas árvores, cipós ou bambus, em ninhos (abandonados ou não) de aves, cupins e formigas e até tijolos ocos, frestas nas paredes, cabaças, panelas... Os ninhos mais fáceis de ver são das espécies que constróem sobre as árvores, e que podem chegar a ter cerca mais de 100.000 indivíduos, como o da famosa irapuá (Trigona spinipes). A entrada (também muito variável conforme a espécie: desde enormes "bocas de sapo" feitas de barro, até "canudos" de cera que são fechados a noite) nos conduz a um mundo fantástico, construído basicamente de uma mistura da cera secretada no dorso das abelhas e resina coletada de plantas (o própolis). Esta combinação chamada de cerume não é casual, pois unem-se as características de maleabilidade e isolamento térmico da cera com o poder antibiótico das resinas. Este material é manipulado incessantemente por operárias para a construção de colunas, potes de pólen e mel, lâminas de isolamento térmico e as células de cria. Aliás, merece uma menção especial o processo de aprovisionamento e oviposição de cada célula, pois para que possa construir-se estas células de cria, aprovisiona-las com alimento, a rainha depois botar o ovo e finalmente ocorrer o fechamento da célula, existe um processo de sincronização, ritualização e interação que não é encontrado em outros animais (nem em outras abelhas) (fig.4).
A organização social destas abelhas apresenta assim muitas peculiaridades que são desafios científicos: por exemplo, o apicultor comum estranhará o fato destas colônias estarem sempre produzindo rainhas que na maioria das vezes serão simplesmente mortas pelas operárias. As equipes científicas brasileiras e de diversos países tem contribuído muito, e ainda vem trabalhando para o esclarecimento destas questões. Mas também existem aspectos das abelhas sem ferrão que interessam não só à ciência, mas à economia e à sociedade em geral, e que atualmente não são suficientemente percebidos e aproveitados:
1) Muitas espécies produzem um mel de excelente qualidade (fig. 5) - incluindo-se alguns dos quais a medicina popular atribui qualidades terapêuticas. Existem amplas possibilidades econômicas abertas neste campo, como ilustra o fato de os japoneses já terem oferecido pelo mel de jataí 5 vezes o preço do mel de Apis. Queriam 5 toneladas, não acharam nem 5 quilos!
2) A criação de abelhas sem ferrão é muito fácil até na cidade. A docilidade da maioria das espécies e seu comportamento fascinante as tornam um excelente material lúdico para os adultos e um instrumento de educação ambiental para as crianças;
3) Seu papel chave nos ecossistemas dificilmente é apreciado na sua plenitude. As abelhas campeiras, ao coletar o néctar e o pólen, visitam quase todo tipo de arbustos e árvores com flores, servindo assim de agentes polinizadores: verdadeiros "cupidos" das matas e plantações. É significativo que certas espécies de abelhas sem ferrão já sejam criadas pelos próprios agricultores para polinizar seus cultivos. Esta prática - comum com Apis e mamangavas - esta sendo aplicada até a certos cultivos de estufa (como a nossa iraí que está sendo usada no Japão na polinização do morango). Mesmo assim, com toda a importância que este grupo possui para o homem, surpreende que em estudos atuais sobre diversidade de abelhas na natureza, ainda novas espécies sejam descritas. Se isto produz uma grande satisfação científica, outro dado é motivo de sincera preocupação: a destruição acelerada dos ecossistemas naturais está condenando várias espécies a uma existência limitada às gavetas dos museus (ou nem isso). Mesmo onde ainda há matas em bom estado - o único ambiente possível para muitas espécies - é comum a destruição dos ninhos para a coleta predatória do mel. As espécies que conseguem sobreviver em ambientes modificados pelo homem também enfrentam sérios problemas: é fácil imaginar qual é o impacto nos polinizadores da própria lavoura (e na dos vizinhos) com uso irresponsável de inseticidas. Neste último caso o efeito econômico não se faz esperar, pois com menos polinizadores a produção agrícola tende a cair.
Podemos supor que o mundo era bem diferente quando os dinossauros ainda dominavam a paisagem e os antepassados do homem eram uns pequenos insetívoros que habitavam a noite da floresta. Mas nessa época, há 80 milhões de anos, as abelhas sem ferrão já estavam lá e cumpriam seu papel de polinizadores ao visitar as flores que recentemente tinham feito sua aparição na paisagem. Para que estes seres tão benéficos para os ecossistemas tropicais e para o próprio homem continuem existindo temos que tomar medidas, que aliás são as que todos já conhecemos, e que não ajudam só às abelhas, mas a muitas outras espécies - inclusive ao homem. Essas medidas são a proteção dos ecossistemas, o uso sustentado dos recursos naturais, o respeito às leis ambientais vigentes e a implementação da educação ambiental desde a escola. Se considerarmos que no território que o nosso país ocupa se encontra nada menos que metade das 400 espécies de abelhas sem ferrão, percebemos que também neste caso, além de privilegiados donos de um enorme potencial natural a ser explorado, também somos depositários de uma responsabilidade extraordinária frente à presente e às futuras gerações.

Grãos



Na produção de grãos (arroz, soja, feijão, milho) como de quaisquer outros produtos alimentícios no sistema orgânico, o trabalho se inicia com um criterioso manejo do solo. Na visão agroecológica, o solo é importante não apenas porque fornece nutrientes às plantas e lhes serve de suporte mas, também porque abriga muitas vidas representadas em fauna e flora capazes de favorecer a saúde e o desenvolvimento das plantas de um modo mais equilibrado e pleno. Daí nasce a concepção de tratar o solo como um "organismo vivo e complexo", que ao interagir com outros elementos como o ar, a água e a matéria orgânica, proporcionarão às culturas além de uma alimentação balanceada, o reforço às suas defesas naturais contra doenças e ataques de insetos.
Outro aspecto importante reside no melhoramento genético. A agricultura orgânica incentiva o resgate de plantas chamadas de "variedades" porque, colhendo os grãos e armazenando-os, estes podem ser replantados todos os anos pelo agricultor; além de as varidedades serem naturalmente mais adaptadas ao clima e solos locais. Mais resistentes à doenças e ao ataque de insetos, as "variedades" diminuem os custos do produtor orgânico com adubações e controle sanitários alternativos, trazendo uma economia em tempo e dinheiro bastante significativa.

Assim, além do resgate de plantas mais adaptadas aos solos e clima de cada região, e do manejo integral da estrutura e fertilidade do solo, uma estratégia válida para o sistema orgânico de grãos, consiste na adição de plantas agrícolas (café, frutíferas)ou florestais (palmito, seringueira, madeiras de lei, etc.). Tais plantas, chamadas "perenes" porque têm um ciclo de vida maior que dois anos, são inseridas no sistema a fim de se evitar que extensas áreas de terra sejam ocupadas por uma única cultura, como ocorre com a monocultura de grãos na agricultura convencional. Desta forma, a produção de grãos no sistema orgânico, ao não admitir a monocultura, também não apresenta os problemas ecológicos que provêm dela, como a erosão e o aumento no ataque de pragas e doenças. Na agricultura orgânica, o manejo de espécies distintas de plantas é sempre realizado para promover o equilíbrio ecológico e o vigor biológico do conjunto.
O que importa é ajustar tal conjunto de acordo com as necessidades do produtor e da comunidade locais, as condições ecológicas regionais e com o potencial de comercialização das espécies. Pois, sem considerar as dimensões social e econômica do sistema, o aspecto ambiental, mesmo que tecnicamente bem conduzido, terá poucas chances de permanecer no longo prazo.
Por fim, no que diz respeito ao processamento dos grãos produzidos no sistema orgânico, este é realizado de modo a preservar ao máximo as qualidades nutricionais e biológicas originalmente presentes nos grãos colhidos no campo. Por exemplo, o trigo passa por moinhos de pedra que conservam o gérmem do grão e, por conseqüência, as vitaminas A e E, assim como os lipídeos (gorduras) orginais do mesmo.
Já o arroz é integral, o que significa que dele não é retirada a casca que contém proteínas, vitamina B12 e fibras. Tais exemplos demonstram o que é regra geral dentro da produção orgânica: que o alimento reflete no prato a qualidade com que foi produzido no campo.

Milho Orgânico:

Alta Produtividade e Viabilidade Econômica: Um Convite aos Grandes e Pequenos Produtores

DÚVIDAS PERTINENTES ?

Durante o XXIV Congresso Brasileiro de Milho, na minha apresentação das atuais técnicas de produção orgânica, constatei que várias dúvidas são comuns a grandes e pequenos agricultores, e a técnicos da pesquisa e da extensão. Vejamos algumas das principais:

-produção orgânica é viável apenas para pequenos agricultores familiares?;
-como obter esterco suficiente para uma grande área?;
-como resolver sem venenos tantos problemas de pragas, como lagartas e carunchos, que atacam a moderna plantação de milho?;
-como é possível se livrar do herbicida e não sucumbir diante das chamadas plantas daninhas?;
-será que vamos depender de capina manual? E as plantações maiores, como ficam ?;
-como manter a alta produtividade já obtida com o uso intensivo de adubo químico?;
-a idéia é bonita, mas existe viabilidade econômica? Existe mercado?
-como fazer a mudança para orgânico? De uma vez ou aos poucos?
-como conviver com um vizinho tradicional? As pragas não vão fugir todas para minha plantação orgânica?
São dúvidas pertinentes e comuns a quem ainda não conhece profundamente o assunto e não convive com produção orgânica bem feita. Comecemos lembrando que hoje já existem no Brasil resultados de pesquisas de longa duração mostrando milho orgânico com produtividade média superior a 8.000kg/ha usando variedades comuns como o BR106. E são experimentos de mais de 17 anos de duração e em mais de um local.

ESTERCO OU MATÉRIA ORGÂNICA ?

Realmente parece difícil conseguir 10 ton./ha de esterco para cultivar áreas médias e grandes. Para contornar essa dificuldade entra o aprimoramento técnico de quem vai conduzir o processo. Existem sistemas de compostagem que permitem ampliar bastante a disponibilidade de matéria orgânica e a qualidade do produto, e, com maior aprimoramento ainda pode-se utilizar o bokache (espécie de adubo orgânico de origem oriental produzido na própria fazenda). Ao fazer isso a necessidade de esterco cai ainda mais. Outro aliado fundamental , que na Europa sempre foi o principal esteio da grandes produções, é a adubação verde. Mas não da maneira tradicional desenvolvida nos países temperados, e sim com enfoques e manejos muito mais eficientes, adequados as condições tropicais ,e, compatíveis com as necessidades dos sistemas de produção e com as possibilidades do produtor. Seu conceito inclui também, companheirismo entre plantas, invasora escolhida, alelopatia, cobertura viva etc. Mais do que como fonte de nitrogênio, o adubo verde deve então ser usado com um instrumento de múltipla habilidade:
re-estrurador do solo; incorporador de matéria orgânica ao sistema; ativador da vida do solo; controlador de pragas; controlador de ervas nativas por ação alelopática e por abafamento; disponibilizador do fósforo do solo; reciclador de nutrientes lixiviados etc. E isso pode ser feito de forma surpreendentemente simples e acessível ao agricultor.

PRAGAS OU INSETOS ?

Com relação a pragas nota-se que as pessoas em geral tem uma visão tendenciosa, acreditando que esses insetos são inimigos arbitrários das plantas cultivadas e sua simples existência os transforma em pragas inevitáveis. Essa visão é decorrente de uma falha de análise dos sistemas produtivos, por excessiva simplificação dos modelos. Esquecem por exemplo da capacidade de defesa inerente as próprias plantas cultivadas, quando em ambientes não estressados, como são as áreas orgânicas. Esquecem também que foi justamente o uso de herbicidas que acabou gerando todas as condições de desequilíbrio ambiental necessárias para que esses insetos se tornem pragas .E partindo do exemplo de lavouras convencionais, extrapolam o raciocínio de que atualmente em qualquer lavoura sempre haverão pragas! Esquecem que os ambientes orgânicos são absolutamente diferentes em tudo, mesmo se for uma monocultura orgânica! Ou seja: na prática de muitos anos o que se tem observado em lavouras bem conduzidas é a quase nula presença de pragas em níveis de dano econômico, principalmente em culturas rústicas como milho. E alem disso, em eventuais momentos de desequilíbrio, principalmente no período de conversão, existem artifícios que podem ser usados com grande eficiência como a homeopatia, o controle biológico e caldas ecologicamente corretas.

ERVAS DANINHAS OU PLANTAS NATIVAS ?

A grande diferença dos sistemas orgânicos está num enfoque onde as plantas nativas e/ou invasoras passam a ter funções positivas ao invés de negativas. Quando adequadamente manejadas deixam de competir com as plantas cultivadas e passam a exercer ações úteis como: garantir biodiversidade no sistema produtivo; servir de alimento para os insetos; servir de abrigo para predadores naturais de pragas; manter estável a temperatura e a umidade do solo; reciclar nutrientes; adicionar matéria orgânica etc. E para garantir que elas executem essas funções positivas, usam-se instrumentos como adubação verde, roçada parcial, sombreamento dirigido, e até modernos implementos como a roçadeira de linha que auxilia até no plantio direto sem herbicida de grandes áreas de milho, soja ou feijão (mesmo se não for orgânico). Ressalte-se que isso tudo, embora simples e fácil, deve ser bem feito para funcionar. Vale lembrar que a adubação química intensa é um dos grandes colaboradores para aumentar o problema das ervas daninhas, bem como o uso de herbicidas, o que felizmente não existe na agricultura orgânica.

BAIXA OU ALTA PRODUTIVIDADE ?

A outrora chamada agricultura alternativa foi intencionalmente relacionada a baixa produtividade e pouca eficiência. E isso atendia aos interesses da indústria de adubos e venenos agrícolas num primeiro momento, e, da indústria de remédios humanos que se beneficia largamente das doenças oriundas da alimentação contaminada e desequilibrada num perverso ciclo vicioso. Essa idéia de baixa produtividade também se originou do fato de que muitos dos pioneiros de fato não eram verdadeiramente produtores, mas consumidores que por falta de alimentos decentes tiveram que se transformar em agricultores alternativos de fim de semana, e sem nenhum apoio da pesquisa agronômica oficial.
Hoje essa imagem foi por terra. Embora muito haja por se fazer, já existe produção mostrando que é possível ser economicamente eficiente e pesquisa dando suporte a alta produtividade na agricultura orgânica. Já há 15 anos se obtinha cenouras orgânicas com mais de 1 kg no "Hortão do Nasser", projeto onde laranjeiras orgânicas de 3 anos produziam mais do que os laranjais industriais paulistas de mais de 7 anos de idade. Pesquisa de João Carlos Galvão na UFV tem mostrado produtividade com milho orgânico 1.500 kg/ha superior à convencional. O pesquisador Jacimar Souza, da Incaper, realiza talvez o melhor e mais sólido trabalho científico na área de alimentos orgânicos, contando com 13 anos de resultados onde as hortaliças orgânicas apresentaram produtividade média 15% superior e custo 20% inferior comparados com o convencional. Lá a produtividade média do milho supera a marca de 8.000 kg/ha sem precisar recorrer a híbridos de alta genética .
A produtividade de coqueiral no Rio de Janeiro evoluiu de 80 para mais de 200 frutos/pé em menos de 12 meses após nossa assistência técnica. E isso ocorreu simultaneamente a redução de 35% no custo! Na produção de leite e laticínios, simples correções de falhas de manejo costumam trazer resultados surpreendentes que as vezes podem representar "a salvação da lavoura". Vale ressaltar que também no nosso trabalho de controle ecológico de pragas urbanas em Belo Horizonte temos tido resultados superiores ao das empresas que utilizam os tradicionais venenos da grandes multinacionais de agrotóxicos.

VIABILIDADE ECONÔMICA ? MERCADO ?

Em todo o Mundo esse é o mercado que mais cresce, ocorrendo o mesmo no Brasil. E o que tem limitado esse crescimento ainda é a falta de oferta. A falta de pesquisa e ensino nas universidades atrasou muito a entrada de novos produtores, que via de regra tem recorrido a assessoria de técnicos independentes e de produtores pioneiros autodidatas. Entretanto, resultados práticos técnicos e econômicos muito bons já comprovados e a recente entrada de alguns (poucos) pesquisadores e professores na área devem acelerar esse processo. Deve-se ressaltar também a crescente preocupação dos consumidores por alimentos mais sadios. Quanto ao milho, vale ressaltar que por falta de oferta é hoje o principal limitador da expansão da pecuária orgânica, seja de leite ou de frangos e ovos.
Quanto a viabilidade econômica, é de avaliação muito simples. Quando bem feito o manejo, se trabalha com custos mais baixos e decrescentes, obtendo-se produtividade equivalente ou superior, e assim o resultado será sempre positivo. Como em geral existe uma demanda reprimida para orgânicos, a viabilidade econômica é ainda mais segura. O que é preciso em muitos casos é trabalhar esse mercado em função da escala pretendida.

É DIFÍCIL MUDAR ? COMO FAZER ?

Isso é mais ou menos como andar de bicicleta: a pessoa que ainda não aprendeu acha isso quase impossível. Depois acha isso quase tão óbvio quanto caminhar.
Como qualquer processo de mudança, optar por métodos orgânicos exige algum esforço, basicamente o esforço de pensar. Pensar, inclusive, na possibilidade de se tornar um produtor mais independente e feliz, e isso as vezes assusta, mudando de uma agricultura de insumo para uma agricultura de manejo. É importante entretanto um bom assessoramento para que eventuais perdas momentâneas sejam compensadas por crescentes índices econômicos registrados desde o início do processo. E assim orientamos os produtores a fazer a mudança paulatinamente conforme a capacidade do seu sistema de produção, seja ele de milho, leite, fruticultura ou outro setor, lançando mão de todo um conhecimento e experiência desenvolvidos nos últimos 20 anos.

ERVAS INVASORAS: O QUE FAZER COM ELAS?










Ao contrário da agricultura convencional, em que se utilizam herbicidas (agrotóxicos) para eliminar as conhecidas "ervas daninhas", a agricultura orgânica tem meios engenhosos e não agressivos para lidar com esse tipo de problema: fazemos uma cobertura de palha sobre os canteiros, evitando que a luz solar chegue até as ervas invasoras e impedindo seu desenvolvimento excessivo. Podemos notar o emprego dessa técnica nos canteiros das duas figuras abaixo, com a preparação à esquerda e canteiros prontos e cobertos com bagaço (palha) de cana à direita.

COMPOSTO


Além do adubo verde, também é usado o composto, adubo obtido da fermentação da palha com esterco de animais.

Na foto podemos observartrabalhadores colocando ocomposto sobre os canteirosonde serão plantadas hortaliças.


Nesta foto aparece a mesmacrotalária, antes de florir.